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Publicado em: 12/30/2011 Por: Fernando Valeika de Barros

O futuro do GPS

São Paulo - Nunca foi tão fácil e seguro circular pelo mundo como hoje, seja de carro, de barco, de avião ou a pé. Guiado por 24 satélites no espaço, o sistema de GPS (Global Position System) está presente hoje em aproximadamente 204 milhões de aparelhos.
Eles atualizam constantemente a posição, a velocidade e a altitude e levam pessoas de um endereço para outro de forma precisa, mesmo que estejam em lugares completamente desconhecidos. Atualmente, 60% dessas máquinas têm o tamanho de um radinho de pilha, com antena embutida e a facilidade de captar sinais de pelo menos quatro satélites, que giram a milhões de quilômetros de distância. Assim, podem determinar a posição de um veículo, calcular o tempo mais rápido para chegar ao destino e colocar motoristas e pedestres na rota certa com precisão de 15 a 20 metros. Mas nem sempre foi assim. Por imposição dos militares do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, a quem pertence a rede de 24 satélites geoestacionários que giram em torno da Terra, o sistema de GPS era propositalmente impreciso por razões de segurança. Há uma década, os sinais chegavam a um dispositivo de navegação com até 100 metros de imprecisão.

Entre cinco e dez vezes menores e bem mais fáceis de serem operados, os aparelhos de GPS ganharam conexão com a internet, monitor em três dimensões, opção de tela touchscreen e comando de voz, que, nos Estados Unidos, pode ser escolhida entre atores, cantores ou personagens como Darth Vader, do filme Guerra nas Estrelas. O conteúdo também evoluiu. É possível hoje saber se faz sol ou chove no destino, onde estão os postos de abastecimento com menor preço ou os restaurantes estrelados.

Apesar de toda essa evolução, os navegadores GPS portáteis, conhecidos por PNDs, a sigla em inglês para Dispositivo de Navegação Portátil, não vivem uma época de ouro. Estudo da consultoria sueca Berg Insight mostra que, turbinados por vendas em mercados emergentes como Brasil, China e Índia, os aparelhos GPS atingirão, no final deste ano, seu recorde de todos os tempos: 42 milhões de dispositivos vendidos em 12 meses. Isso é 5% mais do que no ano anterior e duas vezes e meia o total que circulava no mundo em 2006. Mas dificilmente esse recorde será novamente batido. Muito pelo contrário. Em 2015, a estimativa é que os navegadores não ultrapassem 30 milhões de unidades vendidas. “A tendência é que neste ano o mercado encolha entre 15% e 20% na Europa”, diz Harold Goddijn, presidente mundial da holandesa TomTom.

Ao lado da Garmin, baseada nas Ilhas Cayman, a TomTom é a principal empresa desse mercado desde a década de 1990. No ano passado, as duas companhias venderam dois terços dos aparelhos (34% para a Garmin, 31% para a TomTom), com a Mitac, de Taiwan (dona das marcas Magellan, Mio e Navman), fechando o pódio, com 8,2% do segmento. Hoje controlado por apenas três empresas, esse mercado já teve mais de uma centena de fabricantes concorrendo.

Celular é maior concorrente

Os dispositivos de navegação estão de certa forma repetindo um fenômeno vivido recentemente pelo iPod, da Apple, cujo pico de vendas foi em 2008, pouco antes da chegada do iPhone, com 55,8 milhões de unidades comercializadas. Hoje, suas vendas estão em queda e neste ano devem ficar 3 milhões abaixo do registrado no ano passado. O mesmo acontece com as câmeras fotográficas mais simples, que, no ano passado, venderam 125 milhões de unidades, 10% a menos do que há três anos, em grande parte por causa da popularização de smartphones e tablets com capacidade de tirar fotos com boa resolução. Segundo cálculos do instituto Gartner, cerca de 45 milhões de smartphones já possuem funções de navegação. Deverão chegar a 135 milhões de unidades ainda neste ano e duas vezes mais em 2013, aponta a consultoria americana IHS. “Há alguns anos, empresas como Google e Nokia decidiram incorporar o serviço aos smartphones e tablets e isso mexeu com o mercado de navegação por GPS”, disse a INFO o analista holandês Tom Slob.

Mesmo sob forte competição dos celulares, TomTom e Garmin parecem longe de virar dinossauros a caminho da extinção. As duas grandes fabricantes de aparelhos de geolocalização estão se mexendo para reinventar esse mercado. Elas começaram a fornecer mapas e informações para as fabricantes de smartphones e agora avançam sobre um filão ainda mais lucrativo, o da navegação embarcada. Hoje, 41 milhões de veículos saem de fábrica com GPS instalado no painel. Em cinco anos, o Gartner estima que esse número chegará a 189 milhões. “Fechamos parcerias com a francesa Renault, a italiana Fiat e a japonesa Mazda. E isso é só o começo”, diz Goddijn, ao anunciar os planos da TomTom no Salão do Automóvel de Frankfurt, em setembro. Cada um desses dispositivos acrescenta 1 200 reais ao preço final do carro. O valor ainda é alto, mas já foi maior. Há três anos era cerca de quatro vezes isso. Até modelos populares, como o Fiat Panda, um compacto feito para o mercado europeu, já têm a opção do sistema de navegação a bordo.

Outra função que deve atrair os motoristas é o rol de serviços oferecidos. Conectados à internet, os aparelhos de GPS podem receber diversas informações. “Equipamentos de última geração, como o TomTom Go Live 2535M, incorporaram serviços como roteiro de postos de combustível com bons preços, estacionamentos com vagas disponíveis em tempo real e rotas construídas de forma mais inteligente, levando em conta acidentes de trânsito, engarrafamentos, obras nas vias ou desvios”, disse a INFO Ralf-Peter Schäfer, pesquisador do Centro de Conteúdo e Análise do Trânsito da TomTom em Berlim. “Com cada vez mais veículos entrando em circulação, ter um aparelho capaz de construir rotas inteligentes e monitorar as vias a cada segundo fará a diferença entre chegar ou não pontualmente a um compromisso”, afirma Schäfer.

Formado em engenharia elétrica com especialização em computação, Schäfer tem como missão coordenar uma equipe de 60 pessoas que procura os melhores caminhos em 34 países, tudo em tempo real. O time usa um banco de dados com 3 trilhões de informações sobre congestionamentos. A cada dia, chegam 3,5 bilhões de novos dados, que serão processados e repassados aos usuários do sistema. Segundo Schäfer, o pulo do gato dos fabricantes foi equipar os aparelhos de GPS de última geração com um receptor de sinais RDS/TMC (em português, a sigla significa Sistema de Dados de Rádio/Canal de Mensagem de Tráfego, transmitida pela frequência FM, que não afeta o rádio) e GSM/3G, como o usado nos celulares.

Na Europa e nos Estados Unidos, o sistema é permanentemente alimentado com as informações sobre os deslocamentos de 135 milhões de usuários e informações de órgãos do governo. Tudo isso vai para um servidor parrudo, que aplica, no banco de dados, as mudanças projetadas das condições de tráfego para o trecho naquele momento. “Se um evento extraordinário acontece, a ordem é identificar o itinerário mais eficiente para cada usuário chegar antes ao seu destino”, afirma Schäfer. “A beleza desse sistema é que quanto mais alteração, mais eficiente será encontrar o melhor caminho até o destino.” O serviço da TomTom cobre 22 milhões de quilômetros de ruas e estradas em 18 países da Europa, América do Norte, África e Ásia. Ele ainda não chegou ao Brasil. Por enquanto, um serviço semelhante é oferecido no país apenas pela Navteq, parceira da Garmin e da Airis.

Maior concorrente

Há ainda novos nichos em que os fabricantes investem. Em abril deste ano, de olho nos corredores de rua, a TomTom lançou o Nike+SportWatch GPS em associação com a fabricante de material esportivo. Feito para ser usado no pulso, o GPS tem comunicação com sensores instalados no tênis e mostra dados como a localização do atleta, o tempo percorrido, as calorias gastas no percurso. Um nicho certamente rentável.

“As pessoas podem até tirar fotografias com seus tablets e smartphones, mas continuam comprando câmeras sofisticadas”, disse a INFO o holandês Richard Piekaar, diretor de relações com investidores da TomTom. “Mais fáceis de serem instalados nos carros, com telas maiores e controle de voz, os PNDs ainda resistirão por muito tempo como máquinas amigáveis para indicar rotas.” Com a providencial ajuda dos satélites que orbitam a Terra, parece mesmo haver ainda boas oportunidades para empresas que se dedicam a entender onde se está e para onde se quer ir.

Fonte: info.abril.com.br

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